Rota de Fuga

Sem dar maiores satisfações fez um gesto de impaciência ao fechar os controles e ir em direção a uma estante da biblioteca.

Não tinha muita certeza do que fazer. Meu único propósito era tirá-lo dali, a qualquer custo. Entretanto estava bem aparelhado para receber ordens e perceber o desejo do capitão, que certamente iam de encontro às minhas diretrizes.

Por um momento, assistindo aos esforços do capitão em abrir novo painel de controle, escondido atrás da estante, questionei-me sobre o que deveria fazer, mas não cabia a mim – e talvez eu não tivesse o ferramental necessário para tanto – ir de encontro ao que, no próximo girar de engrenagens, teria de realizar.

Ele já se dirigira a mim, muitas vezes como uma pianola superdimensionada, fazendo-o, entretanto, com um carinho peculiar de quem conhecia intimamente aquilo que criou.

– …Capitão… – tentei novamente, supondo ser capaz (e não era) de mudar meu tom de voz, o vapor diáfano me saindo pelas vias orais enquanto falava.

Não olhava para mim. Era inútil, e internamente eu sabia que não havia muito mais o que fazer a não ser arrancá-lo dos controles nos próximos segundos.
A estrutura cedia já em alguns pontos e o barulho alto da torção do casco e dos vazamentos já se fazia ouvir.

Minhas funções involuntárias disparavam sem piedade os obturadores a vapor, para vedar hermeticamente cada uma das seções da embarcação e o som de vigas se soltando do casco e rebites ricocheteando preocupavam-me.

Se alguma parte do casco se desprendesse e rompesse a parede ou o teto da nau, o cordão umbilical formado de fios, bobinas, canos, mangueiras e correias poderia ser lancetado ou seccionado, fazendo com que meu corpo corresse o risco de parar de funcionar e me privar de cumprir minha última missão.

– Capitão! – insisti como pude – Tenho ordens para tirá-lo daqui.

Toquei-lhe o ombro de leve e a reação violenta foi totalmente inesperada, tendo ele colhido um dos grandes livros de uma das prateleiras e desferido um golpe contra um dos conjuntos de lentes que sensibilizavam a câmara escura e os elementos que me permitiam interpretar a imagem que estava diante de mim.

– Esqueça a sua diretriz! Vidas têm de ser salvas! – e voltou ao trabalho, ignorando o fato de que não tinha como evitar que eu cumprisse as minhas metas.

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