John Henry e a Máquina Infernal

– Avelin-Porter… – repetiu Downes de si para si, enquanto via a bolsa com diamantes que Katherine Vidocq trouxera consigo para comprar-lhes o silêncio diante das evidências que sequer sabiam ter em seu poder – Aveport…

– Eu não sou a única, claro, senhores. – esclareceu, Aveport, entre seus sensuais sibilares – Minha existência, contudo, deve permanecer segredo até que o Homem esteja pronto para dividir com outras criaturas o planeta em que crê ser a única forma de inteligência.

Katherine Vidocq, então, a ajudava a recompor-se e a revestir a sua rígida cintura metálica com o corpete belamente trabalhado.

– O Homem esquece seus heróis e o que eles simbolizam… Poderíamos contar nos dedos quantas pessoas neste prédio de fato sabem quem foi John Henry. – meneou negativamente a cabeça, terminando de vestir o corpete – Somos diferentes de vocês. Mas se há algo que aprendemos com o passado, cavalheiros, é que o Homem se sente ameaçado por qualquer coisa que possa por ventura substituí-lo.

Esta conversa marcaria época se algum dia viesse a público, mas isso nunca aconteceu. Downes e os demais aceitaram o suborno da Coroa PanEuropéia e a matéria sobre John Henry foi publicada. Foram deixadas de fora as evidências aparentemente estapafúrdias de que o que restava da locomotiva modificada tentara se comunicar com o representante de vendas após ter sido quase que completamente destruída pelo duelo.

Aveport fora o primeiro autômato a adquirir consciência e suas primeiras palavras sibilantes foram “Me ajude…” Os cilindros de cera e a máquina diferencial, que ao incidente sobreviveram, faziam as vezes cérebro rudimentar da Perfuratriz a Vapor e foram salvos, dando vida à muitas outras carcaças robóticas depois disso.

A Avelin & Porter entrou no negócio de construção de autômatos em meados do Século XX sob a proteção e supervisão da Coroa e, secretamente, foram cultivando outros cérebros mecânicos, sempre com a supervisão de Aveport e seu crescente número de ajudantes mecânicos.

Em 2010 seria apresentada ao mundo a verdade acerca da existência de toda uma classe nova de criatura inteligente sobre o planeta; cinco anos depois as primeiras leis que confeririam aos autômatos o status de servos passariam no Pariato PanEuropeu, no Congresso das Americas e no Protetorado Soviético Capitalista.

Quase um século se passaria até que uma convulsão social provocasse um movimento internacional de abolição da Servidão Autômata e, no entanto, muito tempo teria de passar até que o Homem conseguisse abandonar a própria miopia moral e se apercebesse da história que se repetia.

John Henry não foi um símbolo da superioridade humana sobre a máquina. Neste tempo de Homens Gloriosos e Máquinas Infernais os eventos de Setembro de 1887 foram muito mais uma denúncia da vilesa em se subestimar, marginalizar e subjugar qualquer indivíduo.

O potencial do Homem para a destruição sempre fora gigantesco e Aveport compreendia que este aspecto da humanidade era particularmente sensível diante de uma ameaça, ainda que imaginária.

Era este o futuro de sua raça sobre aquele planeta que, de repente, parecia tão pequeno. E Aveport o antevia com clareza. Ela olhou em volta, suspirando uma diáfana brisa de vapor e, finalmente, olhou para os presentes com um sorriso.

– …E, ainda assim, por experiência própria, sei que subestimar o Homem não é muito boa ideia. Dando-lhes o devido tempo vocês acabam fazendo a coisa certa. – Lady Katherine Vidocq a acompanhou até a porta e, antes de sairem, Aveport se voltou uma vez mais – Eu tenho fé em vocês.

Por Bruno Accioly
em 3 de Abril de 2010

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“Rota de Fuga”, por Bruno Accioly é um conto coberto por uma licença Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial Vedada a Criação de Obras Derivadas.
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Ilustração de Eduardo Rocha

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Animação da Disney
Animação da Disney c/ Introdução de James Earl Jones e Continuação
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Na Wikipedia
Taking Swings at a Myth, With John Henry the Man
John Henry Days
Man or Mith
NPR – National Public Radio
oBiblio – The Legend of John Henry

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