John Henry e a Máquina Infernal

“Reconstrução, foi o nome deste período pós guerra civil e, apesar de ter sido abolida a escravidão, a cultura de dominação e submissão era a única coisa que brancos e negros conheciam – entendessem ou não serem então considerados iguais perante as leis daquele novo país.

“Isto acontecia da mesma forma em todo canto… os tentáculos do progresso se alastrando pelo território da Norte-América para fazer valer a Nova Ordem Mundial, que viria com a formação do Grande Império PanEuropeu e a posterior Unificação das Américas.

“No Alabama, contudo, alheio a toda esta realidade política, à sombra do Monte Koo’see, um ex-escravo de seus 40 anos, enorme, forte como um urso, participava de mais uma das incontáveis escavações de túneis. Era tido como um dos mais importantes recursos pelos seus companheiros e capatazes. Trabalhava sozinho, não tinha auxiliares e, diziam, tinha de reduzir seu ritmo para que os demais pudessem acompanhá-lo tanto ao rebitar trilhos quanto ao escavar túneis.

“No dia 20 de Setembro de 1887, então, um representante de vendas da Avelin & Porter veio oferecer à C&O Railroad uma Perfuratriz à Vapor, uma maravilha tecnológica da época que, sem operação humana, rebitaria mais que qualquer trabalhador e escavaria túneis em velocidades jamais alcançadas, evitando muitas mortes e, ao mesmo tempo, tornando o trabalho mais eficiente e economicamente mais vantajoso para a companhia.

“Os homens ficaram apavorados com a possibilidade de serem substituídos pela máquina e indignados com a sugestão de que a engenhoca pudesse ser melhor que eles em qualquer aspecto.

“John Henry se levantou e foi andando até a pequena locomotiva modificada para perfurar túneis, seu martelo magnífico na mão esquerda. E disse: ‘Perfuremos lado a lado. Vamos descobrir se a máquina é mesmo superior ao homem’. E os demais logo fizeram apostas enquanto o representante comercial da engenhoca a regulava, pressionava seus inúmeros pinos de controle, movia de lá para cá alavancas e acondicionava os preciosos discos de cera nos quais residiam as instruções da máquina diferencial sob os controles.

“John Henry desferiu o primeiro golpe antes que a máquina conseguisse disparar seu pistão e atingir a rocha. Eram colisões poderosas contra a pedra nua, tanto as desferidas pelo homem quanto as desferidas pela peça sólida de aço do martelo a vapor.

“Homem e máquina penetraram a rocha e espalharam fumaça para todo o lado, ejetando vapor e suor, óleo e sangue, silvos e rosnados. Lado a lado adentraram o coração da montanha, seguindo pelo corredor que eles mesmos construíam, o homem encarando a máquina e esta ignorando qualquer coisa, apenas trabalhando, obedecendo seu destino escrito em cera.

“O duelo já durava quase o dia todo em um ritmo desumano e exagerado até mesmo para as partes de aço e para a caldeira que fervia a água em vapor e usava daquela força contida para esmurrar as entranhas da montanha.

“Em algum ponto, em meio a escavação daquela caverna infernal, o desgaste cobrou seu preço a um dos dois organismos que desafiavam a força da natureza, destruindo polias e correias em meio as repetidas investidas e trancos nas partes do poderoso engenho, que espalhou vapor para todos os lados e peças para tantos outros.

“Diz-se que, então, do meio da fumaça e dos feixes de vapor, sob a luz de um sem número de lamparinas que concorriam com a luz da Lua, John Henry saíra do buraco na rocha, um tanto recurvado, com uma das mãos diante dos olhos e a outra, vacilante, sustentando a marreta castigada pelas investidas impossíveis.

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