John Henry e a Máquina Infernal

A sala, subitamente, parecera aquecer-se, Aveport de pé envergando seu imponente vestido, a cintura diminuta sob o corpete, as mãos em punho apoiadas nos quadris e uma expressão madura que manifestava sua insatisfação com o comentário do jornalista.

– Milady! – Katherine Vidocq interveio – Por favor, sente-se.

Reynolds abanava insistentemente uma das mãos, dada a súbita onda de calor, enquanto afrouxava a gravata e desabotoava o fraque – Ok… Vamos supor, como um exercício, que a senhorita esteja falando a verdade, Milady Aveport.

– Independente de ser um absurdo! – Disse Downer entredentes, sob o olhar firme de Katherine Vidocq.

– Ok… Se você é de fato uma testemunha do duelo ocorrido em Big Bend Tunnel… – continuava Reynolds até ser interrompido pela jovem.

– Não foi em Big Bend Tunnel. – ela disse – O duelo se deu no Monte Koo’see, Alabama.

– Hm-Eu sabia! – retorquiu Garst com um berro, levantando-se.

Reynolds e Long não gostaram nada e este último tomou a dianteira – Inaceitável! É óbvio que esta mocinha é uma impostora e, obviamente, dada sua pouca idade, foi induzida por John Garst a pregar-nos esta peça!

A porta arrombada se abriu novamente e o autômato entrou, perguntando: “Posso retirar a bandeja, senhor?” Downes, impaciente, assentiu e gesticulou para que o criado robótico, barulhento, recolhesse o desastre que se espalhava pelo chão do escritório.

Autômatos eram moda desde o início do Século XX e, no entanto, eram desastrados, estúpidos e não serviam para muita coisa além de emprestarem certo status aos seus donos e para as corporações que os adotavam como evidência de sua sofisticação.

O comentário de Long, sobre Aveport ser um embuste não fazia sentido. Averport parecia bastante séria e Lady Katherine Vidocq era mundialmente conhecida. Uma dama. Uma mulher ordenada pela Coroa PanEuropéia jamais tomaria parte de tamanho absurdo.

– Ok… Voltando ao nosso exercício, portanto, senhoritas… Se Lady Aveport está de fato falando a verdade, minha curiosidade não me deixa impedí-la de contar a história de John Henry de seu ponto de vista.

A sala pareceu esfriar um pouco. Lady Aveport pediu licença e começou, teatral e eloquentemente, a contar sua versão sibilante da história de John Henry:

“É importante que se saiba que as condições de trabalho daqueles homens eram as piores possíveis e, apesar de tudo – sibilava ela com sua voz aveludada, quente e envolvente – trabalhavam felizes aqueles homens. Muitos eram ex-escravos que, sem saber bem como usar sua liberdade, sabiam que dinheiro era o que lhes compraria uma vida digna naquele novo mundo pós derrota Confederada.

“A fumaça, dentro dos túneis escavados, era negra e o ar crescentemente irrespirável, levando muitos daqueles homens à morte por asfixia ou insuficiência pulmonar. Era insustentável aquela situação, e a C&O Railroad sabia bem disso. Era, entretanto, o ganha pão – miserável – daqueles que queriam ajudar o progresso a atravessar montanhas e passar por sobre rios.

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