John Henry e a Máquina Infernal

Lady Katherine tocou seu ombro, intervindo com ar solene – Cavalheiros. Não é o momento. Tenho certeza de que o senhor Downes respeita suas pesquisas e tenho confiança em que os senhores apreciam o trabalho da imprensa, mas a Scotland Yard e a L.H.T. jamais exporiam Milady Aveport a não ser para convencê-los da gravidade da situação.

Um dirigível atracava no topo de um dos arranha-céus de Manhatan enquanto a sala dava um tempo para si mesma e tentava absorver os humores.

Um autômato entrou desajeitadamente, arrombando a porta sem saber que estava trancada e largando a bandeja, com chá. A bandeja despencou de uma altura demasiado grande e fez uma enorme bagunça. Todos estavam acostumados com a estupidez dos autômatos, que parecia não ter remédio. Ignoraram o desastre, como todos sempre faziam.

Downes franziu o senho e perguntou finalmente – Alguém pode me dar uma ideia de qual é a questão aqui?

– Ok… Reza a lenda – começou Reynolds – que em meados do Século XIX, um afro-americano contratado pela construtora ferroviária C&O Railway… – e foi interrompido por Garst.

– Hmm-um gigante de dois metros de altura!

– Ok… …supostamente um sujeito bem robusto… – continuou Reynolds só para ser interrompido novamente por Garst.

– Hmm-que usava uma marreta de 10 quilos!

– Inaceitável! – Interveio Long, exasperado – Não há verdade absoluta em se tratando de uma fábula baseada em fatos reais… Trata-se, afinal, de uma lenda… folclore… E que, ao que parece, tomou lugar, em Talcott, West Virginia.

– Ok… mas pode ter sido em Milboro… – sugeriu Reynolds.

– Hmm-ou ainda no Alabama – insistiu Garst, já rabugento.

Todos pararam, diante do olhar firme de Lady Katherine Vidocq, bisneta de uma lenda viva da investigação criminal e ela mesma uma proeminente investigadora forense e frenologista.

– Resumidamente, cavalheiros: John Henry seria um ex-escravo fisicamente bem dotado, libertado após a derrota Confederada, possuidor de um martelo que poucos usariam, dado seu peso e que era extremamente talentoso no uso da ferramenta para rebitar trilhos ferroviários e avançar através de montanhas na construção de túneis.

A voz sibilante e incomum de Milady Aveport chamou a atenção de todos – Henry não usava ajudantes… Todo perfurador de túneis precisava de um auxiliar, que girava o rebite que sofreria a pancada da marreta. Jamais um homem fizera o trabalho sozinho… Eu vi John Henry desferir pancadas diretamente sobre a rocha e conseguir em uma hora o mesmo resultado que equipes de dez homens conseguiam em duas horas: John Henry, cavalheiros, não era um homem, não era um gigante… John Henry era um deus!

– Basta! – vociferou Downes em direção a Aveport – Olhe aqui, mocinha. Você parece ser de boa família e, sem dúvida, é muito bem relacionada, mas você não pode ter mais de vinte anos de idade e, uma vez que estamos em Janeiro de 2008, a quantidade de Emplastro Brás Cubas que a senhorita precisaria ter usado desde 1800…

Bookmark and Share

Páginas: 1 2 3 4 5 6



Tags: , , ,

2 people have left comments

  • Romeu Manoel Coelho Martins - Gravatar Romeu Manoel Coelho Martins 5 de junho de 2010

    E este eu também já havia lido e espero em breve que ele saia em uma publicação que estou aguardando 😉

  • Fernando Basquiroto de Souza - Gravatar Fernando Basquiroto de Souza 13 de fevereiro de 2011

    Muito bom o conto. Cheio de revelações ao longo da história, mais interessante é o fato de ser uma releitura, vou dar uma olhada sobre este John Henry.

Deixe um Comentário

XHTML: As seguintes tags são permitidas: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>

Obrigatórios "*".