John Henry e a Máquina Infernal

– …Sou, portanto, a última testemunha viva do duelo entre John Henry e a Perfuratriz a Vapor! – Foi a frase de fechamento que a Senhorita Aveport usou, depois de um longo discurso no escritório de Downes, na presença dos boquiabertos Reynolds, Garst e Long.

Depois de uma pausa educada – diante daquilo que os três historiadores pareceram achar tão importante – o jornalista Lawrence Downes, sem qualquer pista do que significara todo o monólogo feito por Aveport resolveu sanar suas dúvidas.

Não teve oportunidade. Foi interrompido, antes mesmo de começar, pela enxurrada de perguntas que Reynolds, Garst e Long começaram a desferir contra a tranquila Senhorita Aveport. Não entendia nem as perguntas feitas pelos três nem as tentativas de resposta empreendidas pela elegante mas inusitada Aveport.

Havia duas semanas, o editor de Downes no New York Times encomendara uma matéria sobre a Lenda de John Henry e, depois de um sem número de versões contraditórias coletadas por sua equipe, o jornalista se via em um mar de rumores, meias verdades e teorias mas, objetivamente, pouquíssimos fatos. Sequer tinha tido tempo de levar a matéria a sério ou realmente se interessar pelo que sua equipe de investigação jornalística coletara com ajuda dos três historiadores.

Uma semana atrás, contudo, receberam uma ligação da Lecoq, Holmes & Temple, a mais bem sucedida agência de detetives da Europa por três séculos, dizendo representar um cliente com informações acerca da história que a equipe de Downes investigava.

Katherine Vidocq estava de pé atrás de Aveport, que escoltara desde o giroporto até ali. Lady Katherine pediu a palavra com um gesto:

– Senhores… Por favor! Lhes foram enviadas instruções expressas do Império PanEuropeu e do Conselho das Américas acerca da necessidade de cooperação por sua parte. – Trocou um olhar grave com a Senhorita Aveport e em seguida lançou um olhar doce mas poderoso para os presentes antes de continuar – A Scotland Yard espera anuência total por parte do New York Times, no sentido de manter a discrição necessária diante dos fatos.

Perdendo um pouco a paciência, Downes levantou-se e trancou a porta do escritório, que já estava encostada – Alguém poderia me dar uma ideia do que está acontecendo?

– Ok… Logo se vê que você deu muita importância para a pesquisa feita pelo seu pessoal… – desferiu o professor Scott Reynolds Nelson, implicando com o jornalista.

– Inaceitável! Eu dei um depoimento de pelo menos quatro horas para seu assistente, Downes! – reclamou o historiador de ferrovias Roy Long.

O folclorologista John Garst, mais velho, que mascava algo e que tinha temperamento mais bovino, deu de ombros e murmurou – Hmm – visivelmente aborrecido com a ignorância do jornalista.

– É um processo… – desculpou-se Downes – Minha equipe coleta material e avaliamos a posteriori. Não tive tempo de ouvir os cilindros de cera ainda, mas foi só porque acabamos de adquirir um novo fonógrafo que toca os cilindros menores e… – foi interrompido.

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2 people have left comments

  • Romeu Manoel Coelho Martins - Gravatar Romeu Manoel Coelho Martins 5 de junho de 2010

    E este eu também já havia lido e espero em breve que ele saia em uma publicação que estou aguardando 😉

  • Fernando Basquiroto de Souza - Gravatar Fernando Basquiroto de Souza 13 de fevereiro de 2011

    Muito bom o conto. Cheio de revelações ao longo da história, mais interessante é o fato de ser uma releitura, vou dar uma olhada sobre este John Henry.

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